terça-feira, 4 de abril de 2017

Contexto mitológico e histórico do emprego da palavra “arco” na aliança de Deus com Noé

*Por Ronaldo Jesus


Em Gênesis 9.13-16 a palavra hebraica usada para “arco” é qeshet (קשת) (Strong 07198, pronuncia-se: keh’sheth), é a mesma palavra usada para “arco de guerra”, aparece 75 vezes no hebraico bíblico, salvo uma exceção em Ezequiel 1.28, sempre é traduzida como artefato bélico, por exemplo, no mesmo livro de Gênesis em 21.26; 27.3; 49.24; ainda em Js 24.12; 1Sm 2.4; 18.4; 2Sm 11.22; 22.35; Jó 41.28; Sl 7.12; 11.2; 37.14; 44.6; Is 7.24; 13.18; Ez 39.3; Os 1.5; 1.7.
Uma peculiaridade notável nesse substantivo é o fato de sua raiz provir do verbo qashah (קאשה) (Strong 07185, pronuncia-se: kawshaw), que tem conotação de dureza ou inflexibilidade, mas pode ser traduzido, como por exemplo, em Gênesis 35.17 como as dores de parto de uma mulher. O inusitado aqui é que a LXX (Septuaginta, tradução grega da Tanakh, segundo a tradição rabínica efetuada por 72 rabinos em 70 dias, daí seu nome, do latim “setenta”) traduziu a palavra qesheth para o grego toxon (τόξο) (Strong 5115, pronuncia-se: tox’on), propriamente um arco de guerra, mas procedente da raiz tikto (κιβωτός) (Strong 5088, pronuncia-se tik’to), que quer dizer exatamente dar fruto no sentido de procriação, parto. Toxon é usado em Apocalipse 6.2, para arco.
Apesar de versões como Almeida Revista e Atualizada, Nova Versão Internacional, Nova Versão na Linguagem de Hoje traduzirem os textos referentes a “nuvens” no plural, traduções sérias e de renome por sua fidelidade, como a King James Version, a Bíblia de Jerusalém, e a Tradução Ecumênica Brasileira, traduzem as frases no singular, segundo a Bíblia de Jerusalém, portanto: “porei meu arco na nuvem e ele se tornará um sinal da aliança entre mim e a terra. (...) Quando o arco estiver na nuvem, eu o verei e me lembrarei da aliança...”.
Apesar de traduções renomadas como a New International Version, e a New King James Version, traduzirem a palavra qesheth como arco-iris (rainbow em inglês), há de se questionar o contexto histórico dessa tradução. Mas antes analisemos o significado simbólico do arco-iris.


Na mitologia grega, Íris era a mensageira da deusa Juno, esta descia do céu num fecho de luz e vestia um xale de sete cores, que deu origem a palavra grega Iris (ίρις) (Strong 2463, pronuncia-se: ee’ris), transliterada da mesma forma ao latim, que agregada ao prefixo “arco” deu origem a palavra usada hoje para o fenômeno da fragmentação do espectro luminoso por meio de partículas de água suspensas no céu. É um vitupério supor que os escribas judeus, monoteístas, referiam-se a uma deusa grego-romana para exemplificar uma aliança que o próprio YHWH havia feito com seu povo.
Na mitologia mesopotâmico-babilônica, em cujo contexto a história do dilúvio está estabelecida, consta um relevo assírio do século XI a.C., com a figura de duas mãos saindo das nuvens, uma oferecendo benção, a outra segurando um arco. O épico de Gilgamés, versão mesopotâmica do dilúvio bíblico, cita Istar, deusa do amor, firmando uma aliança com os homens, através de uma pedra colorida de seu colar, nesse épico a sanha de imortalidade dos homens é destruída pelos deuses, através de um dilúvio universal.
De posse dos contextos históricos e mitológicos da época do dilúvio, podemos traçar um perfil lógico do que Deus queria dizer ao propor um arco entre as nuvens. Quando se pensa em “aliança” a primeira coisa que nos vem à mente é a figura de uma circunferência, um anel, esse é o símbolo de algo indissolúvel e infinito, não há lados, ou limites em tal contorno geométrico. Um arco representa exatamente 180 graus de uma circunferência, sua metade. Os hebreus acreditavam que a terra era coberta por uma abóbada, ou seja, uma cobertura côncava, meia esfera, portanto, meia circunferência. Como as nuvens habitam os céus, uma leitura exegética rabínica apropriada desse texto nos leva ao entendimento do próprio estabelecimento do firmamento, como estatuto perpétuo. Na mente de um judeu, todas as vezes que a abóbada celeste for vista acima das nuvens, isso seria sinal de que Deus não mais feriria a terra com tamanho dilúvio. Meia circunferência representaria a parte de Deus nessa aliança.
Mas a leitura desse texto no singular pode nos levar a uma interpretação profética da aliança de Deus com a humanidade lembre-se: “porei meu arco na nuvem e ele se tornará um sinal da aliança entre mim e a terra. (...) Quando o arco estiver na nuvem, eu o verei e me lembrarei da aliança...”. Em Mateus 24.37 Jesus nos diz que os últimos dias serão como aqueles anteriores ao dilúvio. Lucas 21.27 diz que o Filho do Homem virá “numa nuvem”, o mesmo modo singular em Apocalipse 14.14-16, todos relacionados a volta de Cristo. Ora, Apocalipse 6.2 conta que o Cavaleiro do Cavalo Branco viria com um arco em suas mãos.
O arco representa um artefato de guerra, lembra exércitos, que chegaram a ser medidos por seus arcos. Efraim segundo o Salmo 78.9 era uma tribo de arqueiros, sabemos que esta tribo é uma figura dos gentios, ramos enxertados na videira Israel. 0 capitulo 10 de Apocalipse começa justamente com um anjo, descendo em uma nuvem, com um arco na cabeça. Esse anjo dizia que não se tardaria o cumprimento das promessas de Deus.
Dessa forma, afirmar que falta conhecimento ao povo da Igreja em suas leituras é dizer que os mesmos estão errados por não conhecerem?  Emitir a culpa nas pessoas que só tem o recurso dado pelos nossos antigos tradutores, que mal tinham um conhecimento profundo dos idiomas, a saber, Hebraico e Aramaico, como também de serem munidos de bons Dicionários levaria ainda a culpa ao povo das Congregações que mal tem material de pesquisa sobre determinados assuntos que se refere a tradução de textos? O que vemos de fato é mais de 30.000 erros de traduções nos textos que chegaram a nossas mãos. Se alguém tem culpa nisso esse alguém são os Tradutores Bíblicos e não o povo que já recebeu os textos traduzidos por algum tradutor. Como já dizia um grande professor de Exegese do Antigo Testamento Domingos Zamagna: “Por traz de um grande tradutor, existe um grande Traidor.”


*Ronaldo Jesus 
Bacharel em Telogia - Faesp
Especialização em Hebraico Bíblico e Exegese do Antigo Testamento - Fatisp
Curso de Extensão Universitária em Aramaico Bíblico - USP
Licenciatura em Filosofia - Unifai
Professor de Escola Bíblica Dominical
Cursando Faculdade de Pedagogia





Profº Ronaldo Jesus
Cultos, palestras e eventos
98606-6404 
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REFERENCIA BIBLIOGRÁFICA:

SCHENKER, Adrian. Bíblia Hebraica Stuttgartensia, Funfte verbesserte Auflage. Germany: 1997.
MELAMED, Matzliah Meir. Torá – A Lei de Moisés, Editora Sefer. São Paulo: 2001.
STORNIOLO, Ivo (et. al ). Bíblia de Jerusalém. Editora Paulus. São Paulo: 2004.
HARRIS, R. Laird (et. al ). Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. Editora Vida Nova. São Paulo: 2005.
HATZAMRI, Abraham. Dicionário Português- Hebraico/ Hebraico- Portuuês. Editora Sefer. São Paulo: 2004.

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